Comida saudável fica mais cara e ultraprocessados baratos no país
Levantamento da UFMG mostra que preço de frutas e legumes subiu enquanto o de produtos industrializados recuou entre 2018 e 2024
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostra que alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, verduras e legumes, ficaram relativamente mais caros no Brasil entre 2018 e 2024, enquanto produtos processados e ultraprocessados baratearam no mesmo período. O levantamento foi publicado em julho de 2026 na revista científica Applied Economic Perspectives and Policy.
A pesquisa foi liderada por Thaís Caldeira e coordenada pelo professor Rafael Moreira Claro, ambos do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da UFMG. Os dados analisados vieram do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e cobrem o comportamento dos preços de alimentos ao longo de seis anos, incluindo o período mais agudo da pandemia de Covid-19.
O que os números mostram
Segundo o estudo, o quilo de alimentos in natura e minimamente processados custava em média 18,90 reais em 2018 e terminou 2024 em 18,60 reais, praticamente estável na comparação entre as pontas do período. O caminho até ali, porém, não foi reto: durante a pandemia esse grupo chegou a custar 21,30 reais por quilo, em 2021, antes de recuar de forma gradual nos anos seguintes.
Já os alimentos processados caíram de 26,10 reais para 22,60 reais por quilo no mesmo intervalo. Entre os ultraprocessados, a queda foi de 22,20 reais para 18,80 reais, uma redução de cerca de 16%.
O efeito prático dessa movimentação foi o encolhimento da diferença de preço entre os dois grupos. Em 2018, o quilo de ultraprocessados custava mais que o de alimentos frescos. Seis anos depois, os valores praticamente se equipararam, o que na prática torna a opção industrializada mais competitiva no bolso do consumidor.
Por que os preços se comportaram assim
De acordo com os pesquisadores, o fenômeno não é exclusivo do Brasil e está ligado a uma combinação de fatores econômicos, climáticos e geopolíticos que afetam diferentes elos da cadeia de produção e distribuição de alimentos. Entre eles estão a desvalorização do câmbio, a alta de commodities agrícolas como soja e milho, eventos climáticos extremos como secas e enchentes, mudanças na regulamentação da publicidade de ultraprocessados e a carga tributária sobre alimentos considerados saudáveis.
Em declaração à agência de notícias da UFMG, reproduzida pelo Correio Braziliense, Thaís Caldeira afirmou que "a pandemia de Covid-19 reforçou as alterações na dinâmica do sistema agroalimentar, que vem afetando a produção, a distribuição, a disponibilidade, os preços e a qualidade dos alimentos". Segundo ela, essas interrupções agravaram tendências de pobreza e insegurança alimentar que já existiam antes da crise sanitária.
Quem sente mais o impacto
O estudo aponta que famílias de menor renda são as mais afetadas pela combinação de alimentos saudáveis mais caros e renda que não acompanhou o mesmo ritmo de alta. Rafael Moreira Claro afirmou à UFMG, segundo o Correio Braziliense, que "o aumento dos preços dos alimentos saudáveis, sem um crescimento correspondente da renda, comprometeu a qualidade da dieta e contribuiu para a piora dos indicadores de saúde".
O pesquisador relaciona esse movimento à dificuldade de avanço em metas internacionais de desenvolvimento sustentável ligadas à nutrição e à segurança alimentar. Ele defende medidas estruturais para tornar a alimentação saudável financeiramente viável para diferentes grupos sociais, sem detalhar prazo ou formato específico para essas ações.
O que pode ser feito na prática
Os autores do estudo citam como alternativas já existentes no país estruturas de apoio à alimentação de populações em situação de vulnerabilidade, como bancos de alimentos, cozinhas comunitárias e restaurantes populares. Segundo eles, esse tipo de iniciativa pode ampliar o acesso a comida saudável, reduzir desperdício, gerar empregos e aumentar renda, além de conectar diferentes políticas sociais.
Thaís Caldeira defende ainda o monitoramento contínuo dos preços de alimentos como ferramenta para orientar políticas públicas, incluindo subsídios para frutas, verduras e outros alimentos frescos, e tributação diferenciada para ultraprocessados considerando seu impacto na saúde. Ela também menciona o apoio à agricultura familiar e o fortalecimento de sistemas alimentares locais como caminhos para garantir alimentos frescos e culturalmente adequados à população. O estudo não detalha cronograma ou responsáveis pela eventual implementação dessas medidas no Brasil.
O que fica desse levantamento
O estudo da UFMG não diagnostica caso individual nem recomenda dieta ou tratamento: ele descreve uma tendência de preços observada em dados oficiais entre 2018 e 2024, com projeções que chegam a 2026. Para quem organiza o orçamento doméstico, o dado prático é que a diferença de custo entre comida in natura e produtos industrializados diminuiu, o que exige atenção redobrada na hora de montar a lista de compras.
Não há, nas informações divulgadas, indicação de que o governo federal ou estados tenham anunciado medida concreta em resposta direta a esse estudo específico. O que existe são recomendações dos próprios pesquisadores sobre possíveis políticas públicas, ainda sem cronograma definido. Vale acompanhar se subsídios a alimentos frescos ou mudanças na tributação de ultraprocessados avançam nas discussões legislativas nos próximos meses, e se novos levantamentos do IBGE confirmam a continuidade dessa aproximação de preços entre os grupos alimentares.
Fontes consultadas
Veja também: nossa cobertura de saúde e a editoria de dicas do Diário.



