Cigarro afeta vasos sanguíneos, não só o pulmão, alertam médicos
Especialista explica como substâncias do tabaco comprometem a circulação e por que os primeiros sinais costumam aparecer nas pernas
O Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto, chama atenção para um efeito do cigarro pouco lembrado pela população: o dano aos vasos sanguíneos. Segundo o cirurgião vascular Antonio Eduardo Zerati, presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular na regional de São Paulo, o tabagismo está entre os principais fatores associados à aterosclerose, processo que estreita as artérias e pode levar à obstrução completa da circulação.
De acordo com o médico, quando esse estreitamento compromete o fluxo de sangue, os órgãos e tecidos que dependem daquele vaso passam a sofrer as consequências, muitas vezes sem que o paciente perceba de imediato. O quadro evolui de forma silenciosa e se agrava com o tempo, especialmente em fumantes que já têm hipertensão, diabetes ou alterações no colesterol e nos triglicérides.
Quem é afetado e como os sintomas aparecem
Zerati aponta que os primeiros sinais do comprometimento vascular causado pelo cigarro costumam surgir nas pernas. A redução do fluxo sanguíneo para os membros inferiores pode provocar a chamada claudicação intermitente, quadro em que a pessoa sente dor na panturrilha ao caminhar e tem melhora após alguns minutos de repouso.
Com a progressão da doença, essa dor pode aparecer mesmo sem esforço, em repouso. Feridas que demoram a cicatrizar também merecem atenção redobrada, já que, em casos mais graves, o comprometimento da circulação pode evoluir para gangrena e aumentar o risco de amputação, segundo o especialista.
Duas substâncias do cigarro concentram boa parte desse efeito, conforme explica o médico. A nicotina provoca contração dos vasos e eleva a pressão arterial, enquanto o monóxido de carbono reduz a oxigenação do sangue e favorece a formação de trombos. Juntos, esses mecanismos ajudam a explicar por que o estrago do tabaco vai muito além dos pulmões.
Fumante passivo e cigarro eletrônico também entram no risco
O médico alerta que quem não fuma, mas convive com fumantes, também está exposto às substâncias tóxicas da fumaça e pode ter o sistema vascular agredido por essa exposição. Por isso, segundo ele, manter ambientes livres de tabaco protege não só quem já abandonou ou nunca teve o hábito, mas também crianças, familiares e colegas de trabalho.
Zerati chama atenção ainda para um equívoco comum: a ideia de que dispositivos eletrônicos de vaporização seriam uma alternativa sem consequências. Segundo o cirurgião, esses produtos podem manter a exposição à nicotina e a outras substâncias capazes de gerar efeitos cardiovasculares, risco que se torna maior em pessoas com histórico de problemas no coração.
O que fazer na prática para reduzir o risco vascular
O especialista afirma que a interrupção do tabagismo traz benefícios que começam a aparecer rapidamente. A pressão arterial pode responder de forma positiva em pouco tempo depois que a pessoa para de fumar, e a manutenção da abstinência tende a reduzir progressivamente o risco de doenças vasculares e também de câncer.
Segundo Zerati, o acompanhamento médico ajuda tanto na avaliação dos fatores de risco cardiovascular quanto no processo de deixar o cigarro, e pode incluir orientação sobre atividade física regular e alimentação equilibrada como parte do cuidado com a saúde dos vasos. O médico reforça que sinais como dor ao caminhar, feridas de cicatrização lenta ou dor em repouso não devem ser tratados como normais e merecem avaliação profissional.
"Nunca é tarde para parar de fumar. Abandonar o cigarro representa uma das decisões mais importantes para proteger as artérias e reduzir riscos à saúde", afirma Antonio Eduardo Zerati, presidente da SBACV-SP, em entrevista ao O Diário de Mogi.
O que ainda depende de avaliação individual
As informações divulgadas pelo especialista descrevem mecanismos gerais associados ao tabagismo e não substituem diagnóstico médico. A intensidade dos danos vasculares varia conforme tempo de exposição ao cigarro, presença de outras doenças e histórico de cada pessoa, fatores que só um profissional pode avaliar caso a caso.
Quem sente dor ao caminhar, tem feridas que não cicatrizam ou percebe alterações na circulação das pernas deve procurar um médico para investigação, em vez de recorrer a soluções caseiras ou adiar a consulta. O mesmo vale para quem usa cigarro eletrônico supondo que o risco cardiovascular seja menor: segundo o cirurgião vascular, essa suposição não tem sustentação e merece a mesma atenção dedicada ao cigarro tradicional.
Fontes consultadas
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