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30% dos beneficiários deixam Bolsa Família após cisternas

O Programa Cisternas, uma política pública implementada no Brasil há mais de 20 anos, tem se mostrado eficaz não apenas na garantia do fornecimento de água, mas também na redução da dependência do Bolsa Família entre as famílias beneficiadas. Um estudo recente do Instituto da Economia do Trabalho (IZA) revela que a chegada das cisternas resultou em uma queda de 30,4% no número de beneficiários do Bolsa Família nas regiões atendidas.

Segundo os pesquisadores, a análise dos dados do programa, em conjunto com informações do Cadastro Único e da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), mostrou que, antes da instalação das cisternas, 56% das famílias eram beneficiárias do Bolsa Família. Após a implementação do programa, esse número caiu para 35%. A pesquisa, que monitorou mais de 600 mil indivíduos entre 2003 e 2017, indica que a introdução da nova infraestrutura teve um impacto significativo na vida dessas famílias.

Além da redução no número de beneficiários, o estudo constatou que a probabilidade de permanência das famílias no Cadastro Único caiu em média nove pontos percentuais no terceiro ano após a instalação das cisternas. Isso reflete uma melhora nas condições de vida e um aumento na participação no mercado de trabalho, com um crescimento de 12% nos empregos formais e um aumento de 20% na renda do trabalho, em comparação com grupos de controle.

A chegada das cisternas também teve um efeito positivo na saúde das populações. A qualidade da água consumida melhorou, resultando em uma queda de 16% nas hospitalizações de adultos e de 37% entre crianças devido a doenças relacionadas à água. Os pesquisadores destacam que, antes da instalação das cisternas, muitas famílias buscavam água em poços contaminados, o que impactava diretamente sua saúde e qualidade de vida.

Yuri Barreto, um dos autores do estudo, enfatiza que o tempo gasto para buscar água diminuiu drasticamente. Anteriormente, as famílias levavam entre uma e duas horas por dia para coletar água, enquanto, com as cisternas, 93% delas agora gastam 15 minutos ou menos. Essa redução no tempo livre permitiu que os membros da família buscassem oportunidades de emprego mais distantes, que antes eram inacessíveis devido ao tempo limitado.

A pesquisa também revela que a diminuição da dependência do Bolsa Família foi mais acentuada entre famílias com crianças pequenas, que são mais vulneráveis a restrições de tempo e recursos hídricos. O estudo aponta, ainda, uma queda de 23% nas chances de exclusão dessas famílias do programa por não cumprimento das condicionalidades, como a presença escolar e a vacinação.

O custo do programa, que gira em torno de R$ 4,1 mil por cisterna, é considerado relativamente baixo em comparação aos benefícios gerados. Desde sua criação, o Programa Cisternas já construiu 1,1 milhão de cisternas para abastecimento pessoal e outras 215 mil para a agricultura em mais de 1,5 mil municípios do semiárido nordestino. O investimento total até 2024 foi estimado em R$ 4 bilhões.

Os pesquisadores acreditam que o programa possui potencial para expansão, especialmente diante dos desafios impostos pela emergência climática. Embora bem estabelecido, a cobertura do programa varia significativamente entre as cidades, e ainda há muitas famílias elegíveis que não foram beneficiadas. Com as questões de seca se agravando, a continuidade e ampliação do Programa Cisternas tornam-se cada vez mais relevantes.

Sobre o autor: César Walsh

Economista e financeiro formado pela USP, César Walsh trilhou uma carreira global, escalando o mundo dos bancos e mergulhando nas finanças internacionais na Alemanha. Atualmente, usa sua expertise para revitalizar empresas em crise no Brasil e compartilha insights no (nome do site). Constantemente aprimorando-se através da escrita.

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